Na mochila, o equipamento que carrego agora se faz notar bem mais nitidamente. O declive parece eterno, mas eventualmente chegamos à um tipo de marco. Há um tronco pintado de branco.
— Cris, — era assim que o pessoal da vila a chamava (eu nunca entendi) — qual é a dessa árvore pintada?
— É a metade do caminho.
Coisas infinitas não têm metade, têm? A dúvida traz consigo as lembranças premonitórias da subida. À esta altura, a vegetação não me deixa mais ver o restante do vale, me obrigando, assim, a me concentrar na descida. O que é melhor para todos.
— Cansado? — a guia expulsou meus pensamentos com um adorável sorrisinho irritante. Eu teria feito o mesmo.
— Que nada. — menti.
Mas a mentira é parcial. A necessidade de cumprir, sem erros, minha missão era extenuante mesmo enquanto dormia. Meu cansaço não era físico, (objeto de sua pergunta) ainda não.
— Apenas do teu deboche. — completei.
Ela conseguiu conter a gargalhada. Mas claramente engasgou com ela. Escorregou em uma pedra e quase caiu sentada, não fosse por um galho próximo. Sempre próximos agora.
— Nem pensar, que eu vou te carregar de volta. — Aproveitei pra me vingar.
Será que me perdoaria se soubesse o que vim fazer na nascente? Ela não precisa saber, mesmo depois de terminado... Cris respondeu algo. Não consegui entender e apenas ri nervosamente em resposta.
Descubro agora que a metade inferior do caminho é mais úmida e mais difícil. A floresta é mais fechada, e já faz tempo que essa não é uma caminhada qualquer. Movimentos quase sincronizados (com um pouco de atraso): abaixar-se para superar os galhos, girar o torso para se esgueirar entre os troncos e agarrar nos galhos certos para ter o suporte necessário. A descida agora é mais balé que descida. E eu sou o dançarino que faltou a todos os ensaios e que agora tenta imitar em tempo real, os outros participantes.
Me pergunto o quanto estamos cientes, em conjunto, desse jogo de gato e rato. Sei que Cris não é guia, não meramente uma guia. Na verdade, "guia" é quase apenas o disfarce. E ela sabe que não sou um simples turista, não sabe? Qual é a dela, afinal? O povo Chinkariq só é isolado geograficamente. Ela deve saber quem sou de verdade e deve imaginar o que eu vim fazer aqui.
— Você está sempre viajando pelo mundo Dr. Trajano? — Cris inquiriu. Porém a pergunta foi uma resposta. Ela lê mentes? Ou me chamar de "doutor" é apenas um trejeito?
— Eu trabalho demais. Não consigo tirar férias sempre. Inclusive, se pudesse escolher, não teria vindo no outono. Está frio demais. — Fui sincero em minha resposta. Em junho, o Caribe teria sido um destino bem mais palatável. Bem no início da temporada de furacões, é verdade. Entretanto, possivelmente mais confortável que aqui nessa descida inacabável. A Cris respondeu:
— Eu prefiro essa época aqui. Bem menos gente aparece para visitar. O trabalho fica mais fácil. — Mas qual dos trabalhos? novamente divaguei.
Sinto que, aos poucos, nos revelamos um ao outro. Estamos em um encontro às cegas, mas daqueles que ocorrem realmente no escuro total. Curioso como dois atores antagônicos podem ser tão simpáticos um ao outro. De um lado um pesquisador procurando a cura para um mal que assola a vida na terra. Do outro uma guardiã disfarçada de guia turística. Um perfeito artifício para alguém cujo trabalho é garantir que "turistas" se comportem em locais sagrados.
Me surpreendo em perceber que a trilha virou uma escada de pedras bem definida. Apenas cinco- não, seis degraus. Que decepção. Alguém teve uma grande ideia, mas preguiça de executá-la. Não o julgo. Antes de terminar meus pensamentos, sou invadido por uma sensação de alívio. Meus pés encontram terreno plano pela segunda vez desde que saí do meu quarto hoje. Uma figura que não me é estranha está mais alguns metros à frente. É o chefe da vila. Mas o que ele faz aqui?! Talvez seja algo relacionado às celebrações do solstício.
— Bom dia, meus jovens! Como foi a caminhada? — O chefe nos recebe com um caloroso sorriso no rosto enquanto nos aproximamos. "Que povo mais hospitaleiro", pensei.
— Na minha terra dizem "pra baixo, todo santo ajuda". Foi uma ótima caminhada até agora... Bom dia. — Tenho certeza que não engoliram essa de "ótima caminhada". Mas parecem ter rido sinceramente.
— Então por isso não te encontrei mais cedo, pai. — Cris finge surpresa, eu acho. Estou certo de que há algo estranho acontecendo aqui.
Chegamos finalmente à clareira. Além das árvores posso enfim ver a nascente sagrada. A água mina de uma estreita fenda na face de pedra do vale e cria uma grande lagoa em forma de folha. Na outra extremidade, a água vaza, criando, assim, um pequeno córrego de poucos metros, que logo encontra serenamente seu caminho novamente pelo subsolo e dá continuidade ao ciclo fluvial. As águas são cristalinas e o vale dá um tom impossível à cor da lagoa. As imagens de satélite não fazem jus à nascente. Agora percebo porque eles à chamam de "espelho da alma" em quíchua. A lâmina de sua superfície é de um calma arrebatadora e desconcertante. Com a ausência de vento, o vale é uma fotografia ao vivo. Há um sentimento de completude no ar. Por um instante, tenho um calafrio no corpo todo. Um arrepio cujo o rastro faz com que eu sinta individualmente cada célula da minha pele. Tomo fôlego sonoramente e o prendo de forma inconsciente. O fascínio em meus olhos deve ser óbvio.
— Eu não deveria estar aqui. — murmuro, penso alto. Acho que não me ouvem. Sinto culpa de ter o privilégio e usá-lo de forma desrespeitosa. Momentos depois volto, finalmente, à carne.
Cris passa pelo pai em direção à margem rochosa da água. Agora, quase ao seu lado, sigo-a. Mas antes que possa prosseguir, o chefe me bloqueia com o braço estendido e a mal espalmada.
— Nenhum objeto pode ser levado perto da água. — O patriarca intervém me cobrando a mochila.
Não é permitido à nenhum ser humano tocar na água sagrada, exceto em uma data do ano: 21 de junho. Além disso, nenhum forasteiro pode tocá-la. Não previ a precaução adicional que o chefe adotou. Essa regra vale para todo mundo? É sempre o líder da comunidade que à impõe? "Perdi a oportunidade. Não conseguirei colher amostras da água." era o que pensava enquanto pensava em uma forma de não entregar a mochila.
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