Dia 6 – Um pequeno conflito

Em que situação um pai (mas pai mesmo, ou mãe) não ama seu filho?

Desde de muito antes de eu conhecer aquela que seria sua mãe, eu já sabia como eu iria querer o desenvolvimento do nosso filho. Como fazer o máximo para que ele seja bem sucedido nesse mundo tão difícil. Aos dois anos de idade ele já tinha mais livros do que eu aos 30. Todos os brinquedos que eu comprava para ele eram com o objetivo de ajudar em seu desenvolvimento. Ainda assim, não era perfeito. Houve sim, momentos em que a preguiça e o cansaço venceram a vontade de ler mais um livro (já lido centenas de vezes). Também, quisera eu, ter condições de criar um ambiente onde a criação artística fosse mais presente. Com mais desenhos, pinturas e músicas criadas por nós.

Nunca tivemos dinheiro suficiente para desprezarmos a educação formal, essa fábrica de operários cada vez mais capazes. Não que na primeira infância houvesse qualquer chance de ele não ir para a escola. Na verdade não há lugar melhor para que ele desenvolva bem algumas das habilidades que eu próprio não exercito tão bem. Tivemos experiências horríveis com babás. Era como se estivéssemos contratando leitoras de feed de Instagram. A quantidade de atenção dedicada à criança era mínima... menos que a mínima. Instalar câmeras dentro de casa se mostrou um dos melhores investimentos que fiz na vida.

Pois bem. Assim que o Nolan chegou na idade em que podia ir para a escola, nós o matriculamos. A escola aceitava crianças que completassem 2 anos de idade até o final de fevereiro. O sofrimento era intenso nos primeiros dias. Há mães que choram mais que as próprias crianças. No caso do Nolan, nós chegávamos, embarcávamos ele no trem para Auschwitz e íamos embora. Pelo menos é assim que imagino o ponto de vista dele, de tanto choro e desespero. Pelos relatórios das professoras, apesar de não chorar durante o abandono parental depois da primeira semana, demorou um mês até ele se adaptar minimamente e participar ativamente de todas as atividades.

Depois disso a situação se estabilizou. O Nolan demonstrava gostar de ir para escola, de fazer as atividades, falava dos colegas e das professoras. Nunca realmente notei a evolução cognitiva e motora dele (nada além do esperado), mas notei a diferença no desenvolvimento social. O primeiro semestre terminou. Fomos à reunião de pais e responsáveis para nos atualizar no desenvolvimento dele. Para nossa surpresa, fomos avisados de que ele receberia um diploma de aluno destaque. "Isso não significa nada", foi o que pensei. Afinal, o que essas crianças fazem a manhã toda? Brincam, pintam e choram(?). Para minha surpresa de novo, o parecer sobre o desenvolvimento dele era muito mais técnico do que eu poderia imaginar. Detalhes extensos sobre cognição e coordenação motora estavam bem descritos em um relatório de uma página. No caderno de relatório haviam amostras da grafia e uma forma de avaliação da progressão da criança ao longo dos bimestres.

Talvez o injusto confronto com minha preconcepções não tenha me deixado repensar no que o "Aluno destaque" poderia representar. Injusto, porque um dos lados tinha um relatório técnico para esfregar na cara do lado contrário. De todo modo, mais 6 meses se passaram. E novamente fomos chamados para uma pequena premiação. Acho nesse momento meio que caiu a ficha. Passei a ter algumas certezas sobre as pessoas cujas crianças dividiam espaço com meu filho.

Abramos um parêntese:

Buscar o Nolan na escola é uma forma de tortura psicológica. Eu costumava chegar às 11:45 e esperar 15 minutos. Geralmente não encontrava vaga na frente e tinha que andar um pouco. Às vezes atravessar a rua, o que, no local, não é muito legal enquanto levamos uma criança de 2 anos. Além disso, um ou dois minutos a mais que gastava para conseguir chegar no carro, geralmente, se multiplicavam no caminho para casa por causa do trânsito. Como solução, passei a chegar 11:35, e, desde então, consigo vagas na frente da escola de forma consistente. Me dei bastante tempo para observar os pais que chegavam depois de mim. A maioria em carros que custam algumas vezes mais que o nosso. Mas, em via de regra, 100% deles parece ter uma preguiça mortal de andar. "Estacionam" de qualquer jeito, em qualquer lugar. Todos os dias eles se inter trancam (nos trancando também no processo). Há uma forma de excepcionalismo que custa a entrar na minha cabeça.

"Não. Você não é especial." ou "Não vai adiantar colocar teu filho em uma escola boa. Não vai adiantar." São algumas das frases que digo enquanto vejo aquele emaranhado de imbecilidade. Ao se aglomerarem na frente do portão momentos antes de ele abrir, geralmente eles espalham-se formando um "cordão de isolamento" que impede que outras pessoas chegando se abriguem do Sol (o que é bastante importante na nossa região). Parte deles esboçam alguma pressa quando veem que estão atrapalhando outros, alguns até parecem genuinamente com pressa mesmo sem realmente se importar com quem possam estar atrasando, ainda que raramente qualquer um deles ande a mais que 30 km/h (em uma via de 60 km/h) logo após deixar as imediações da escola. A maioria não dá a mínima pra existência de outros seres humanos próximos. Todos os dias vejo crianças pequenas no banco de trás sem cinto de segurança ou pelo menos cadeirinha. Muitas vezes vejo crianças sentadas no colo de adultos no banco do passageiro, na frente. Às vezes vejo crianças soltas no banco do passageiro, na frente. Já vi um dos colegas do Nolan no colo do "pai" dirigindo!

Então quem é realmente imbecil? Eu! Por não me dar conta mais cedo do espelho que grande parte daquelas crianças tem.

Logo, penso que é bastante natural que uma criança que é estimulada a se desenvolver de todas as formas vá se destacar dentre outras que tem modelos tão pobres como referência. Nestes termos, o Nolan foi condecorado novamente no primeiro semestre do ano seguinte. Obviamente, inclusive. No relatório pudemos ver um desenvolvimento sensacional, acima do esperado para a idade dele. Agora, talvez eu possa ficar orgulhoso sabendo bem que também é mérito nosso.

Então aconteceu. O fim do ano chegou e a quase já tradicional mensagem da secretaria da escola avisando que o Nolan havia sido aluno destaque... Dessa vez ela não chegou. E era nesta exata cilada (que eu previ!) que eu não queria cair. Por tudo de mais sagrado! Eu juro! Não importa o que aconteça, eu só quero que o Nolan tenha condições mínimas para ser feliz. E que ele tenha condições de fazer todos ao seu redor felizes com ele também. Mesmo assim o desconforto apareceu. Eu me decepcionei comigo mesmo por um fantasma de decepção vindo de um túmulo cuja cova eu mesmo cavei. E de algo que eu sabia que não representava nada.

Já tarde da noite na véspera da reunião de pais, recebemos uma mensagem pedindo que todos os alunos comparecerem para a entrega de um diploma pela conclusão desta primeira fase escolar. "Então ninguém será destaque." nos entreolhamos. A reunião correu normalmente. Novamente um relatório técnico detalhado foi apresentado. E, ao ler o relatório é que veio a certeza: Ele foi destaque de novo, só não houve a premiação. Um trecho do formulário que descreve o desenvolvimento da criança teve que ser estendido à caneta. Pois o nível em que a grafia dele está não se encontrava entre as opções listadas originalmente. Na minha opinião o parecer da professora tinha mais em comum com uma ode do que com um relatório. Mas certamente isso sou eu tentando me colocar vendas de novo.

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