Quando criança, em quase todas as minhas férias, minha mãe me levava para sua terra natal, o distrito de Marudá. Localizado em Marapanim, no litoral do Pará.
Meu universo se tornava o quintal da minha avó. Na época, o espaço parecia realmente infinito. A fronteira incerta do terreno estava no limite da visão (por entre as árvores que se entrelaçavam no mangue), no limite da imaginação ou no limite da coragem. Haviam dezenas de árvores de todas as espécies locais (ou quase isso), o vento do litoral era constante. E quando, em silêncio, era possível ouvir o som das ondas quebrando na praia à centenas de metros distante.
Eu, meu irmão e primos passávamos horas ouvindo histórias e lendas da região contados por meus avós e tios. Era um local onde tudo se tornava mágico. Aprendíamos sobre personagens que misturavam mitologia e realidade, humanos e não humanos. Havia uma dicotomia no ar, um carimbó entre o real e o fantástico.
Fazíamos longas caminhadas, tantas vezes sem rumo definido. Eram verdadeiras expedições. "Varríamos" a praia em toda a sua extensão descascando cocos pelo caminho, revirando pedras em busca de peixes, mariscos e moluscos. Despescávamos os cacurís com nossos primos mais velhos e era assim que muitas vezes descobrimos o que seria nosso almoço. Geralmente íamos até a orla para tomar banho nas águas salobras e barrentas daquela baía, no deságue do rio Amazonas misturado ao oceano Atlântico.
Um amanhecer bucólico, tempestades litorâneas, tardes ao sol, a brisa salgada, a areia, respingos do quebrar das ondas carregados pelo ar, a dança das folhas dos coqueiros, vozes distantes trazidas pelo vento, o anoitecer, a lua tocando àgua, voltar pra casa levado pelo coaxar dos guardiões. Recordar essas coisas realmente me faz viajar de volta no tempo e no espaço. Uma sensação de pertencimento mútuo me invade. Mesmo realmente não sendo dali, sou eternamente grato pelo que vivi.
Infelizmente, não posso voltar. Posso sim, voltar ao endereço, mas jamais àquele lugar que me era sagrado. Quase nada do que eu conheci e amei existe de forma similar. Eu mudei e Marudá também. A tranquilidade de ambos não é a mesma. Os cacurís já não são permitidos. Claro que eu cortaria meus pés nas pedras em que antes eu pisava sem problema nenhum. O Sol é muito intenso e a chuva mais rara, as praias mais sujas. Ás vezes é possível ouvir o vento nas lacunas dentre as "músicas" na orla. Não tenho mais acesso ao terreno da minha avó da mesma forma (ela não está mais lá). Meu avô meio que se cansou de ser meu avô há alguns anos, mesmo antes de morrer. Aquela Marudá não é apenas um lugar que mora em mim... talvez seja o único lugar em que ela existe.
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