A trilha que descia até a nascente era íngreme demais para ser caminhada. Pelo menos, enquanto caminhava, era o que passava em minha mente. O desespero causado pelo pensamento de que eu ainda precisaria realizar a viagem de volta fez-me olhar ao longe à procura de qualquer rota de fuga alternativa. Nenhuma das outras faces do vale deu alívio ao meu sofrimento antecipado.
A guia não parecia preocupada. Pelo que contava, traçara o mesmo trajeto todas as semanas durante os últimos 12 anos. Ria bastante ao contar da vez que torceu o tornozelo perto do ponto mais baixo e demorou 28 horas para percorrer a subida. Só podia ser mentira. Não importava muito, era uma história quase engraçada mesmo.
Eu queria que ela parasse um pouco. Quase não dava tempo de levantar a cabeça e olhar o vale com mais atenção. De pouco em pouco, em vários vislumbres, pude ir montando a cena completa. Aos olhos, aquele enorme vão eram uma espécie de paraíso. A névoa daquela manhã era apenas suficiente para dar a impressão de mistério, mas deixava a visão alcançar qualquer ponto além dela. Os tons de verde pareciam quase sobrenaturais. Certamente era um local mais difícil para o pintor do mundo alcançar. Ficou por último, quando os outros tons de verde já haviam acabado.
O ar estava estagnado, àquela altura me perguntava se a ausência da brisa fria era uma dádiva ou uma maldição. Lá embaixo, no vértice formado pelas colinas, nitidamente havia uma clareira (muito embora, até aquele momento, a copa das árvores não me permitissem ver o que havia naquela abertura). A partir daquele ponto mais baixo, a encosta ao norte se opunha bruscamente. Estava sombreada, e assim continuaria desde abril até agosto. Era a mais inclinada e imponente. Também era a única face parcialmente rochosa. Que terrivelmente bonito era aquele verde na superfície das pedras. Melhor me concentrar na descida, pensei.
Se fossem uma entidade em separado, minhas pernas diriam que os olhos estavam alucinando. Um pouco mais abaixo, em mim, nenhuma beleza era percebida. Pois concordando com as diferenças "geográficas" no meu corpo, minha metade inferior só percebia o vale como sendo o inferno (e nem haviam experimentado a subida de volta ainda). Apesar de bem definido pelos milhares de pés que certamente já realizaram a descida, meus pés podiam apenas sentir as consequências daquele acidentado percurso. As raízes se faziam de tortos degraus e os caules e galhos eram corrimões de fazer inveja aos piores designers do mundo. Me perguntava quantos metros abaixo rolaria caso escorregasse em uma das raízes molhadas. Seguramente seria o fim. Talvez meus pés quisessem que fosse. Mas pelo menos eles jamais conhecerão o musgo nas pedras do lado setentrional daquele lugar.
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