Dia 1 – Um personagem em movimento

#Desafios

Já não era possível mais distinguir e definir os espectros distorcidos à distância em que Eduarda brevemente se encontrava a cada momento. O velocímetro marcava agora menos que setenta quilômetros horários. "Isso vai demorar", pensou. A contundente luz dos faróis dos veículos no sentido oposto ao seu mantinham seus já cansados olhos cegos, mesmo depois de já estarem vários metros superados.

Apesar da constatação, não tinha pressa. Na verdade, não queria ter pressa. Fora sempre ensinada que é melhor chegar atrasada do que nunca chegar. Na situação em que se encontrava, seria melhor chegar cedo. Afinal, na vida, há alguns processos que não nos esperam.

Eduarda não queria ter saído de casa. Era um fim de noite ótimo para ficar debaixo das cobertas. Contemplar as gotas escorrendo na janela de seu quarto era um passatempo muito mais agradável do que "contemplá-las" no parabrisas. Até para os mais aficionados por direção, guiar um carro no escuro e na chuva intensa era uma atividade estressante. Entretanto, hoje seu movimento era involuntário.

A água enlameada jorrava do asfalto em direção ao seu rosto. Os poucos milímetros de silício embaçado que a protegiam de um banho desagradável não eram suficientes para convencer seu cérebro. Ela se encolhia a cada jorro, tentava não piscar, mas o fracasso era garantido.

Tudo naquela noite parecia um apêndice da realidade, um capítulo descartado de um livro que ficara perfeito sem ele. Perdida em seus pensamentos, a solidão da estrada a fazia se sentir presa em um sonho ruim. Uma noite surreal formada por acontecimentos naturais, esperados e, da maioria dos pontos de vista, corriqueiros. 

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