A mochila

#É o que tem pra hoje #Lixo

Os últimos segundos se tornaram horas. Essa é a sensação letárgica que o pedido do chefe me traz. Qual das mil coisas que estou tentando organizar em minha mente funcionaria para convencê-lo de que eu devo ficar com a mochila? Nada vem realmente à mente de forma organizada. "Está pesada demais"? Não. Isso serviria como um convite. Me faço de doido, e ajo como alguém que não entendera o que foi falado e resolveu fingir que entendeu? Tenho prática. Faço isso todo dia. Mas vai ser difícil ele deixar passar. O tempo está acabando. Falo sobre o clima para ganhar te...

— O tempo é sempre tão agradável aqui, chefe? — a minha reação se expressa tão bagunçada e afoita quanto meus poucos pensamentos. Me abaixo para amarrar meu cadarço que já está amarrado. Que ideia boba.

— A margem do espelho é o chão mais puro em que podemos pisar neste mundo. A boa sorte do clima que o vale tem se deve a isso. — o patriarca da vila responde enquanto dá a volta calmamente em torno de mim assim que começo a reamarrar meu cadarço. De forma gentil, ele me ajuda com a mochila. Que alívio... Merda.

Não sou um soldado. Os filmes do John Wick não serviram de vídeo aula para como eu poderia sobrepujar um homem com o dobro do meu tamanho. Valeria à pena atacá-los para poder ter acesso livre ao lago? Quantas vidas meu crime poderia salvar à longo prazo? Ainda que eu fosse capaz, como eu fugiria da vila? Ainda preciso pegar minhas coisas no hotel.

— Obrigado, chefe.

A pressão exercida pela minha responsabilidade já era grande o suficiente quando eu tinha um plano realizável. Em segredo, eu ri do paradoxo: Agora o peso em meus ombros aumentou com a perda da mochila. Parte de mim quer apenas me tornar o personagem que estou representando. Apenas curtir o passeio e relaxar já não parece o fim do mundo, embora possa ser. Para os Chinkariq não seria o primeiro apocalipse. Mas por justiça divina, talvez, sejam os únicos sobreviventes.

Cris havia se distanciado bastante durante minha passagem no guarda-volumes. Ela estava na extremidade sul do lago, aparentemente, me aguardando. Caminho timidamente em sua direção, um caminhada hesitante. Eu não deveria deixar tão claro o quanto eu queria não ter entregado meus pertences. A guia já estava na margem extrema ao sul, no local que seria a ponta (ou caule) da folha que dava forma ao lago. Ali há uma protuberância no formato do corpo de água, uma tentativa de início de córrego que logo se perdia nas pedras. Nesse ponto, construíram uma rústica, mas bem estruturada ponte de Lapacho. Dessa distância, parece que as colunas de sua fundação não tocam a água. Finalmente chego até Cris na cabeceira da ponte.

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